28 de Setembro de 2009

Talvez o mais surpreendente desta noite eleitoral seja a ausência de qualquer surpresa. O PS conseguiu uma vitória justa e clara e o PSD não conseguiu fazer mais do que nas última legislativas, quando ainda era liderado por Santana Lopes. É certo que o PS perdeu a maioria absoluta, mas os 36% alcançados traduzem-se num bom resultado depois de uma legislatura conturbada. Acresce que a diferença para o segundo partido mais votado excede as expectativas: 8% correspondente a mais de 400 mil votos. Os resultados confirmaram a campanha segura e confiante de José Sócrates e o eleitorado escolheu-o inequivocamente para primeiro-ministro.


Se há algum resultado minimamente surpreendente, este refere-se à nova configuração do parlamento. Tudo aponta para o PS governar sozinho e sem acordos parlamentares. Mas esta nova configuração é complexa e apresenta pelo menos duas consequências, a segunda das quais será a mais curiosa:

 

- a ausência de maioria absoluta obrigará o governo do PS a re-orientar algumas áreas de governação, a adoptar uma postura mais dialogante com as demais forças políticas, e a gerir com cuidado acrescido a relação com o Presidente de República;


- o facto do PS necessitar apenas de um de dois partidos à direita para encontrar acordos pontuais no parlamento (PSD ou PP), mas precisar de dois à esquerda para o mesmo fim (BE e PCP), faz prever uma maior facilidade para obter acordos à direita – facto tanto mais provável quanto maior for a necessidade do PCP e do BE competirem entre si para recusarem acordos com o PS e sustentarem a sua base eleitoral de protesto.


Este será talvez o maior paradoxo desta noite: o resultado expresso de uma maioria inequívoca dos três partidos de esquerda no parlamento, em contraste com a maior probabilidade do PS vir a celebrar mais acordos à direita do que à esquerda. A legislatura promete.

um uivo de Nuno David às 04:37

Afinal não houve grandes surpresas. Apesar do aumento da abstenção, não se pode dizer que seja dramático, muito menos no contexto pós-europeias. Havendo um certo cansaço do eleitorado, esse cansaço revelou-se mais num gesto de protesto contra quem deteve nos últimos anos o poder total (salvo seja). Isto era o que muitos já prevíamos. A noite passada foi, compreensivelmente, de celebração. De resto, deu para que quase todos tivessem motivo para festejar (menos a Dra Manuela, e mesmo assim pode argumentar que o PSD cresceu, em votos e em deputados). 

Porém, com mais ou com menos retórica, com maior ou menor triunfalismo (do CDS ou do BE), o certo é que as “vitórias” ou “derrotas” são bastante relativas. No fundo, elas tendem a medir-se em função das expectativas criadas. E desse ponto de vista, talvez a maior vitória, porque menos esperada, seja a do CDS/PP. O Paulinho bem pode mostrar a dentadura, pois o seu partido avança e afirma-se como bastião da direita. O BE, com a duplicação do número de deputados e o aumento substancial de votos, tem motivos de sobra para estar eufórico. Vai passar a contar mais, sem dúvida. Embora não saibamos ainda ao certo como. A CDU/PCP aguentou-se mais uma vez (aumentou um deputado e o nº de votos).

Por seu lado o PS conseguiu aquilo que, após as europeias, muitos julgavam impossível. Teve a “maioria clara” que Sócrates pediu ao eleitorado. Graças a quê? Do meu ponto de vista, porque o líder do PS se mostrou muito consistente na campanha, conhecedor das matérias, com sentido de Estado, com uma postura positiva e mobilizadora, vincando bem o contraste perante uma Manuela Ferreira Leite pouco convincente, crispada e negativa. Claro, a imagem foi fundamental. Sócrates tem boa imagem, e melhorou-a nos últimos tempos. Exactamente o oposto de MFL. Mostrou-se mais calmo, com a serenidade suficiente para inspirar confiança e capacidade. Esteve melhor que a sua adversária directa e conseguiu (com a ajuda de alguns notáveis do PS) beneficiar do “voto útil” e da defesa do Estado social. Mas, para além disso, no seu novo estilo, fez passar a ideia (ainda que sem o admitir abertamente) de que reconheceu alguns dos excessos e erros cometidos pelo anterior governo. Muitos dos que antes o criticaram terão visto na sua expressão algum sinal de arrependimento sincero.

E agora? Bem, no dia do jogo celebra-se. No dia seguinte pensa-se no próximo combate e começa-se a prepará-lo. Confirmou-se a maioria parlamentar de esquerda. Porém, uma “aliança de esquerda” para a legislatura tem poucas condições de avançar. Bloco e PC cresceram à custa da crítica constante às políticas do anterior governo. O BE quer chegar ao poder, mas anda há algum tempo a sonhar com “um outro PS”. Todos temos o direito ao sonho. No entanto o velho princípio da real politik obriga-nos a por os pés no chão e ler a realidade que temos. As pessoas e os líderes podem evoluir e mudar. Não sou ingénuo ao ponto de acreditar que o novo PS de Sócrates vai mudar radicalmente. Todavia, parece-me óbvio que a estratégia seguida pelo PS e o programa do futuro governo terão de adaptar-se às novas circunstâncias. E porventura saberão perceber o essencial: verificou-se uma reorientação do eleitorado à esquerda. Larga parte dos votos do BE saíram directamente do PS. As pessoas, sobretudo essas pessoas (ou seja, os cerca de 18% do BE e PCP somados), querem melhores políticas sociais, mais e melhor emprego, menos desigualdades e injustiças; querem ser reconhecidas e estimuladas no trabalho, no consumo e na sociedade; querem um sistema educativo de qualidade, com os professores motivados e os alunos a aprender; querem os jovens universitários com acesso ao emprego de qualidade.

Mesmo reconhecendo as dificuldades de um compromisso à esquerda (PS+BE+CDU), a reorientação de algumas das áreas governativas mais polémicas terá de passar pela aproximação a posições que esses partidos da esquerda defendem desde há muito (e foi em parte por isso que cresceram). Fundamental é que a liderança do PS retire argumentos que justifiquem as habituais posições irredutiveis e de contra-poder. A política de navegação à vista, com a ginástica dos acordos pontuais no parlamento, poderá ser uma saída. Mas esse deve ser sempre o último recurso, porque, assim, a permanente instabilidade será incomportável.

 

 

um uivo de Elísio Estanque às 02:28

14 de Setembro de 2009

Na última edição da OPS escrevi um texto em que falava da reforma do sistema eleitoral, nas suas diferentes vertentes, mais concretamente nas eleições legislativas e autárquicas.

 

Ao assistir aos debates, ao acompanhamento que a comunicação social dá a estas eleições e ao que os líderes dos dois maiores partidos dizem, parece que vamos única e exclusivamente eleger o primeiro-ministro, não dando importância aos deputados, que nos representam.

 

Penso que isto acontece efectivamente, porque o sistema, e a própria Constituição, desresponsabiliza os deputados de prestarem contas ao seu eleitorado ao declarar que estes passam a representar a nação e não o círculo pelo qual foram eleitos.

 

Permitindo, assim, que as cúpulas partidárias indiquem como candidatos pessoas, que por muito competentes que sejam, não conhecem, muitas vezes as regiões por que foram eleitos e não prestem contas, a não ser ao líder.

 

um uivo de Pedro Tito de Morais às 22:27

Será difícil recordar umas eleições com um desfecho tão incerto como as próximas eleições legislativas. Num primeiro plano, o que está seguramente em causa é uma escolha entre um governo minoritário do PS ou um governo da direita. Mas a concretizar-se a desejável vitória do PS, o que pode vir a estar igualmente em causa depois das eleições, e pela primeira vez na democracia portuguesa, será a capacidade dos partidos da esquerda radical convergirem para um acordo com o PS de natureza parlamentar.


A postura autista do PCP e do BE, que exploram o voto de protesto sem qualquer intenção de estabelecer pontes comuns de entendimento político na esquerda portuguesa, será talvez um dos factores que mais tem contribuído para resvalar o PS para a margem direita da política portuguesa. Se a disputa de ideias é um pilar básico da democracia, não será menos importante a capacidade dos partidos estabelecerem pontes comuns de entendimento. Não se entende, por conseguinte, que em 35 anos de democracia portuguesa nunca tenham havido entendimentos à esquerda.

 

Democracia significa entendimento e compromisso, capacidade de abdicar de objectivos programáticos defendidos por poucos em troca de objectivos programáticos abrangentes e consensuais. O PS sabe, felizmente, disso. O PCP e o BE ainda precisam aprender. O desfecho das eleições é ainda incerto. Mas, quem sabe? A oportunidade para essa mudança de atitude pode estar aí à porta! Esperemos para ver.

 

um uivo de Nuno David às 21:04

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