02 de Outubro de 2009

Deixo aqui umas notas soltas sobre a actual situação política.

 

Um amigo meu, muito bem informado, tinha-me dito, já há mais de dois meses, que haveria um estratégia articulada para derrotar o PS, estratégia desenhada por um triângulo cujos vértices seriam Cavaco, Catroga e Manuela Ferreira Leite. Os sinais nesse sentido não poderiam ser mais claros, com uma visível coincidência de agenda política.

 

Antes mesmo da tempestade provocada pela declaração do Presidente da República, tinha preparado um primeiro texto para este blog, onde tinha escrito: “Estou convencido de que o Presidente da República não se vai recandidatar a novo mandato, o que o deixa mais livre para complicar a vida a um futuro governo socialista”.

 

Receio que seja grande a tentação de alguns sectores do PS fazerem acordos preferenciais com o CDS, não só por motivos aritméticos, mas também políticos. As razões aritméticas são evidentes, dada a soma dos deputados dos dois Partidos, garantindo maioria absoluta. As razões políticas serão igualmente observáveis: o grande crescimento do partido de Paulo Portas e a sua cautelosa reserva nesta crise institucional; os antecedentes de “bom comportamento” desse líder quando coligado com Durão Barroso, mostrando-se um parceiro de coligação fiável e eficaz; seria uma fórmula tranquilizadora para os meios dos negócios. Acordos com o CDS seriam para esses sectores preferíveis aos com o PSD, dado o previsível agravamento da instabilidade desse Partido e a falta de credibilidade que tem demonstrado em anteriores ocasiões (basta ver que o único “pacto” PS/PSD, no domínio da Justiça, em boa verdade não funcionou, antes pelo contrário).

 

Se os elementos anteriores têm algum fundamento, isso deve ser motivo de reflexão para a esquerda, num momento particularmente delicado. Tenho dificuldade em compreender a mera postura de combate do Bloco e do PC contra o PS, justamente numa conjuntura em que teriam condições para condicionar positivamente as orientações políticas dominantes. Tanto mais quanto, à escala mundial, a crise do neo-liberalismo parece representar a oportunidade de alguma inflexão política no sentido favorável aos sectores que têm sido críticos em relação à globalização selvagem e ao “capitalismo desorganizado”. Não sei se seria possível uma “política de esquerda” (tanto mais quanto hoje parece difícil definir todos os contornos dessa alternativa), mas deveria tentar-se em Portugal “uma política um pouco mais à esquerda”, em correspondência com a vontade da maioria do eleitorado.
 


28 de Setembro de 2009
Bandeira PortugalPara quem ainda tinha dúvidas fica a constatação. O PS ganhou as eleições. A comprová-lo está o facto do Presidente da República vir a convidar Sócrates para formar o próximo Governo.
 
Para quem ainda tinha dúvidas fica a constatação. O PSD perdeu as eleições. Não só para o PS, como para o CDS/PP. A demagogia da mentira da verdade, o conservadorismo de Ferreira Leite, a intriga, a conspiração, a maledicência, a falsidade e a arrogância foram fortemente penalizados pelos eleitores.
 
Para quem ainda tinha dúvidas fica a constatação. O CDS/PP ganhou o prestígio da direita que há mais de duas décadas não tinha. Derrotou o PSD retirando-lhe uma boa fatia do eleitorado, contribuiu para esvaziar a maioria absoluta ao Partido Socialista e marcou a diferença entre a direita civilizada e a outra que estava convencida que tudo valia para atingir os seus fins.
 
Para quem ainda tinha dúvidas fica a constatação. O BE ganhou o prestígio da extrema-esquerda. Nunca em Portugal, nem sequer no tempo do PREC, a extrema-esquerda tinha conseguido tão bons resultados. Passou o PCP em importância e implementação, contribuiu para retirar a maioria absoluta ao Partido Socialista e demonstrou que o enquistamento do PCP num modelo recusado em todo o Mundo é o corolário das doutrinas retrógradas que os comunistas insistem em considerar como válidas.
 
Para quem ainda tinha dúvidas fica a constatação. O PCP é o grande derrotado da esquerda. Perdeu posições para todos, deixou de ser a referência da esquerda das esquerdas.
 
Para quem ainda tinha dúvidas fica a constatação. A democracia é, continua a ser, o regime de preferência da esmagadora maioria dos portugueses. Derrota os abstencionistas, derrota a extrema-direita, derrota os defensores do não-voto. Confirma que o poder está nas nossas mãos, ainda que seja só no momento das escolhas.
 

Simultaneamente publicado nos: a Barbearia do Senhor Luís (a minha casa); SIMpleX (de quem me despeço já com saudades); Eleições2009/o Público (onde ainda faltam as autárquicas); Cão com tu (onde estarei em força após os períodos eleitorais) e numa outra coisinha que ainda não posso divulgar (mas falta pouco para o fazer).

um uivo de Luis Novaes Tito às 00:38

23 de Setembro de 2009

Vale a pena ler a entrevista de Manuel Alegre ao DN, disponível aqui. Só quem não tem seguido atentamente a relação de Alegre com o PS poderia estranhar o seu apoio no comício em Coimbra. Mais do que um apoio ao PS, este comício foi "um reencontro do PS consigo mesmo." Para quem teve a oportunidade de assistir ao comício, como eu, presenciou porventura a mais genuina e a maior manifestação de entusiasmo, aplauso e adesão em toda a campanha do PS. Um acontecimento oportuno para o PS reflectir sobre a necessidade de repensar a sua forma de governação, mais perto das pessoas, mais socialista, mais inovadora à esquerda. É este PS que se quer vencedor nas próximas legislativas.

 

um uivo de Nuno David às 22:05

22 de Setembro de 2009

É certo que as clivagens entre os partidos de esquerda em Portugal (PS, BE e PCP) – ainda expressão tardia dos traumas do PREC –, não auguram grande optimismo para acordos parlamentares estáveis. Porém, os previsíveis resultados eleitorais justificam algum voluntarismo. Antes de mais, é legítimo esperar que, no dia seguinte às eleições, surjam alguns sinais de abertura dos principais protagonistas para compromissos políticos que garantam a necessária governabilidade. A confirmar-se a esperada vitória do PS, com maioria relativa, resta-nos como possibilidades ou um governo minoritário ou de maioria de esquerda. Em qualquer dos casos, seja na base de acordos pontuais ou de uma aliança de médio prazo, parece inquestionável que alguns entendimentos terão de ocorrer, para que o futuro governo PS não caia pouco tempo depois de tomar posse.

E aqui, entre uma cultura de rigidez e de autismo como é a do PCP (um partido que, queira-se ou não, está em processo lento de implosão) e uma cultura de maior dinamismo e democraticidade interna como é a do BE (um partido que, queira-se ou não, está em fase de consolidação como terceira força política), terá por isso mais lógica esperarmos uma aproximação entre o PS e o Bloco (caso consigam, em conjunto, uma maioria de deputados).

Se admitirmos que os socialistas e o seu actual líder já se deram conta de alguns dos erros políticos cometidos nesta legislatura, não só no estilo e no diálogo com a sociedade, mas também em áreas políticas decisivas (como a educação, o trabalho, etc), é razoável esperar que algumas concessões ocorram nesses domínios, tendo em vista um possível acordo parlamentar à esquerda. Idealmente, esse acordo deveria abranger o PCP e o BE, mas tal parece irrealista. Assim, uma aproximação entre o PS e o BE será o requisito minimo para um governo estável e de esquerda.

Para o PS isso ajudaria, e muito, a uma possível reconciliação da sua actual liderança com aqueles segmentos desiludidos do seu eleitorado que nestas eleições votarão mais à esquerda ou abstêm-se. Para o Bloco de Esquerda, seria uma fantástica oportunidade de mostrar ao eleitorado o seu sentido de responsabilidade, assumindo-se, de facto, como uma força alternativa, que não apenas cresce para protestar ou gritar mais alto, mas que é capaz de colocar no seu horizonte a governação (sem esquecer que o seu crescimento eleitoral é sobretudo à custa do PS).

Acresce que a eventual influência do BE no governo (com ou sem a ocupação de pastas no executivo) poderia garantir mais transparência e eficácia na acção reguladora do Estado, e, em contrapartida, essa eventualidade significaria que o Bloco assume o reformismo e a economia de mercado como eixos estruturantes da organização socioeconomica. É claro que isso teria um preço elevado. E certamentente entraria em choque com a praxis e a linguagem radical de alguns sectores bloquistas. Mas, a verificar-se, tal cenário pode significar um decisivo virar de página na história da esquerda e da democracia portugues.

 

(Artigo originalmente publicado no Público de 21 de Setembro.)


um uivo de Elísio Estanque às 22:58

A campanha para as legislativas acabou. Resta saber a quem aproveita o fato.

 

O afastamento de Fernando Lima no auge da campanha não é inócuo. Cavaco Silva, neste momento, e sobretudo na fase inicial do processo, quando deveria ter tido as devidas responsabilidades de Estado para impedir que o assunto das escutas atingisse proporções desmesuradas, deixa adivinhar uma estratégia cujos contornos só o futuro permitirá descortinar, mas que está muito para lá de uma vulgar crise artificial.

 

Se o afastamento de Fernando Lima, num momento convenientemente oportuno, servir apenas para que Cavaco Silva, afinal, já não tenha de falar depois das eleições, isso diz bem mais sobre a invenção de fatos com objetivos inconfessos, mas premeditados, que não podem, de modo algum, ficar sem paternidade.

 

Se o afastamento de Fernando Lima, na sequência dos demais fatos ligados às escutas, serve para controlar os resultados das eleições e o jogo de forças que delas resultar, exactamente  no ponto em que Cavaco Silva gostaria de exercer a sua magistratura, então a situação não é menos grave.

 

Uma coisa é certa. A campanha para as legislativas acabou. Toda a gente quer ouvir Cavaco Silva. Dele, obviamente, se espera que não fique calado.

um uivo de Paulo Peixoto às 02:00

20 de Setembro de 2009

Manuel Alegre discordou de algumas das políticas seguidas pelo governo de José Sócrates, votou contra alguns diplomas, como por exemplo o famigerado Código do Trabalho. Com ele votaram quatro deputadas do grupo parlamentar socialista (Teresa Portugal, Júlia Caré, Eugénia Alho e Matilde Sousa Franco).

 

Esteve presente sempre que a Democracia e a Liberdade estiveram em perigo, sofreu o exílio, a cadeia, mas nunca deixou de lutar pelo seu País.

 

Não aceitou o lugar de candidato a Deputado que lhe foi oferecido pela direcção do partido, viu com magoa os seus apoiantes serem afastados das listas, foi mal tratado por alguns dirigentes nacionais e distritais que se esqueceram, por momentos, que foi devido ao espírito de sacrifício de Alegre e de Homens como ele que hoje é possível a essas pessoas falarem em liberdade e estarem nos lugares que ocupam.

 

Ontem, pós de lado a diferenças e mais uma vez deu o exemplo, esteve presente em Coimbra no maior comício do PS nestas eleições.

 

Fê-lo por achar que o seu partido e o seu País precisavam da sua presença, apelando ao voto no PS afirmando: “estou aqui para afirmar a unidade do PS no essencial – e o essencial é derrotar o PSD, é impedir que venha um governo de direita que rasgue as políticas sociais e instaure um Estado mínimo para os pobres e um Estado máximo para os poderosos.” (ver excerto aqui: http://manuelalegre.com/index.php?area=1100&id=1487)

 

Com ele estava também Teresa Portugal, que também foi afastada das listas de candidatos, apoiando Ana Jorge, cabeça de lista pelo distrito e José Sócrates candidato a Primeiro Ministro.

 

Portugal precisa de Homens e Mulheres assim, que põem de lado as suas divergências e nas horas difíceis, se unem à volta de uma causa comum, a defesa de um Portugal mais Justo, Livre e Fraterno.

um uivo de Pedro Tito de Morais às 19:03

18 de Setembro de 2009

TijolosHá momentos da vida em que temos de decidir baseados no pragmatismo. O que se vai passar no dia 27, digam o que disserem todos os concorrentes ao Parlamento, é escolher não só os deputados para a Assembleia da República, mas também influenciar decididamente os equilíbrios na formação do próximo Governo.

 

O pragmatismo reside em optar por um Governo de esquerda ou um outro de direita (caracterização para simplificar) e votar de forma a contribuir para que seja impossível ter aquilo que não queremos.

 

No meu caso é fácil. Sou militante socialista, sei que quero um Governo de esquerda moderada e por isso irei votar no Partido Socialista. No caso de outros, por exemplo dos que sendo de esquerda não querem um Governo de maioria absoluta do PS e que pensam ter a oportunidade de protestar nas legislativas dispersando votos ou abstendo-se, convém que estejam atentos, não vá o Diabo tecê-las e Belém cerzi-las.


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