19 de Janeiro de 2010

Há quinze dias escrevi aqui que a pouco mais de um ano das próximas eleições presidenciais é já possível ter algumas certezas, embora permaneçam no ar outras tantas dúvidas.

 

Quanto às certezas, identifiquei quatro que me parecem relevantes: o actual presidente vai candidatar-se a um segundo mandato; não surgirão, à direita, outros candidatos fortes; haverá, concerteza, temas fortes à direita e o que vai estar em jogo, em 2011, é a definição de modelos concretos de sociedade e de Estado em muitos aspectos antagónicos.

 

Conforme prometi, então, apresento agora outras tantas dúvidas.

 

1. Vai a esquerda ter um único candidato (na 1ª volta)?

 

A resposta seria sim:

 

1.1 Se o PS não estivesse tão fulanizado por razões várias (históricas ou recentes), se não estivesse tão dependente do êxito do Governo (e, em particular, do Primeiro Ministro), se não estivesse tão comprometido com a defesa de interesses específicos do bloco central (que alguns comentaristas de alto gabarito preferem apelidar de "interesses transversais") e se não estivesse, mais uma vez, a gerir "a crise" do capitalismo pedindo novos sacrifícios aos que desde sempre são sacrificados;

 

Em última análise, a resposta à questão depende da posição que Sócrates ( e o seu "petit comité") vier a tomar e do tempo em que essa decisão seja tomada.

 

1.2 Se o PC considerasse mais importante derrotar o (re)candidato da direita logo à 1ª volta do que reafirmar "pela enésima vez" a sua força eleitoral, cada vez mais ameaçada pelos bloquistas e pelos trânsfugas que o abandonam directamente para os partidos de direita ou para a abstenção.

 

2. Vai a esquerda ter um candidato na 2º volta?

 

Se, na área do socratismo ou do soarismo aparecer um candidato para além do único que já se anunciou (Manuel Alegre), e se esse candidato tiver o apoio oficial (ou oficioso) do PS, é bem provável que o (re)candidato da direita ganhe à primeira, possívelmente ainda com mais votos do que os que obteve em 2005. Essa situação será ainda mais provável se o PC, como é habitual, aparecer com um candidato próprio que não desista à boca das urnas.

 

3. Vai o PS (e o Secretário-Geral) apoiar oficialmente a candidatura de Manuel Alegre?

 

Provavelmente sim, porque essa será a única forma de impedir a forte ruptura partidária à esquerda, que se adivinha que pudesse surgir na sequência da aprovação, com um ou com os dois partidos da direita, do Orçamento de Estado de 2010 e de um plano que garanta aprovações de diplomas importantes e do OE de 2011. O apoio a Manuel Alegre aparecerá, nesse contexto, como a tentativa de "prenda" à esquerda em geral, mas em particular à sua própria esquerda. Será a única forma de silenciar ou abafar a forte contestação social que irá surgir na sequência dessa aprovação. Será a única maneira de Sócrates impedir as críticas políticas vindas da base do partido

 

Se o actual presidente for reeleito em 2011, a direita deixa de considerar útil manter o PS no poder e a forma mais eficaz de ter uma maioria, um governo e um presidente, é chumbar o respectivo Orçamento.


06 de Janeiro de 2010

A pouco mais de um ano das próximas eleições presidenciais, é já possível ter algumas certezas embora permaneçam no ar outras tantas dúvidas.

Comecemos pelas primeiras:

 

1. O actual presidente vai candidatar-se a um segundo mandato.

Não se trata apenas de uma questão de carácter pessoal (o seu "orgulho" e a vontade que o caracteriza não "ficariam bem" se passasse à história como o primeiro presidente da democracia que não cumpriu dois mandatos seguidos...), mas sobretudo da direita ainda precisar dele como fonte de um certo estilo de poder político (autoritarismo) e, ao mesmo tempo, expressão de uma certa coesão ideológica (conservadorismo e "bons costumes" sociais). Nos tempos que correm (crises provocadas pelos vários "excesssos" capitalistas), autoritarismo, assistencialismo e conservadorismo aparecem como "valores seguros" no investimento partidário ao nível presidencial. 

 

2. Decorre do primeiro ponto que não surgirão, à direita, outros candidatos fortes. A convergência eleitoral à direita será, por isso, absoluta. O "nosso capitalismo" e os nossos capitalistas ainda não querem um Berlusconi (embora a crise financeira seja o caldo ideal para o aparecimento fulgurante de oportunistas) e o nosso povo religioso ainda não está "preparado" para um Sarkozi. Os potenciais candidatos "da moda" não correrão riscos porque a reeleição do actual presidente significará ganhar aí tudo o que possam "ter perdido na assembleia e na rua" durante dois anos.

 

3. Mas , não havendo outros candidatos fortes à direita, haverá concerteza temas fortes.

Daqui a um ano estaremos perante a habitual discussão de um novo orçamento de estado, mas agora mais limitado pelas regras europeias de combate aos vários desequilíbrios. Até lá, o "país político" girará em torno de um debate mais "radical" e mais "crispado"(à direita e à esquerda) sobre o desemprego, os impostos e as taxas de juro, as falências e deslocalizações, a justiça, a educação, a ecologia e a "moral e bons costumes". Perante esses temas, os candidatos oficialmente anunciados vão ser obrigados a pronunciar-se todos os dias: Que alternativas têm? Que mudanças propõem? Que posição tomaram no tempo próprio?  Vão apoiar e "aguentar" o governo na aplicação das receitas comunitárias de combate ao déficite?

 

4. Mais do que em eleições anteriores, o que vai estar em jogo é a definição de modelos concretos de sociedade e de Estado que cada um dos candidatos vai defender. E, se só houver dois candidatos, é certo que serão chamados a definições bem distintas!  

Mas, aqui começam as dúvidas, o que me dará pretexto para um próximo post sobre o assunto.

 

 

um uivo de Jorge Martins às 11:12

03 de Novembro de 2009

No rescaldo das eleições autárquicas no distrito do Porto, alguns factos de actuação política deveriam merecer uma especial reflexão dos militantes socialistas: Processos disciplinares visando a expulsão de vários camaradas que, como independentes, se candidataram aos órgãos autárquicos em Matosinhos, Valongo, Stº Ildefonso (freguesia do Porto), etc.

 

Espera-se que a justificação estatutária destes processos não deixe margem para dúvidas, nomeadamente no direito à defesa dos "arguidos" e nas explicações, nunca antes conhecidas, sobre as deliberações (datas, procedimentos legais, votações) que conduziram à formação das listas oficiais. Espera-se também que sejam esclarecidas as razões que impediram a apresentação de listas únicas do PS. Caso contrário, tudo será visto como um processo de depuração ideológica e política, impensável num partido que fez da democracia interna a sua grande diferença em relação à restante esquerda. Será bom não esquecer que, perante a candidatura independente de Manuel Alegre à presidência da República, também houve claras tentativas de altos responsáveis partidários no sentido da sua expulsão por delito de opinião e desrespeito estatutário. Todo o articulado estatutário deve ser respeitado, e não apenas aquele artigo que "agora dá jeito" para punir os “infractores”. Quem votou nas listas dos “infractores” socialistas? Obviamente, muitos militantes socialistas! E estes, que votaram, também vão ser alvo de alguma medida estatutária? Que pena…! Não se pode!

um uivo de Jorge Martins às 11:28

02 de Outubro de 2009

Deixo aqui umas notas soltas sobre a actual situação política.

 

Um amigo meu, muito bem informado, tinha-me dito, já há mais de dois meses, que haveria um estratégia articulada para derrotar o PS, estratégia desenhada por um triângulo cujos vértices seriam Cavaco, Catroga e Manuela Ferreira Leite. Os sinais nesse sentido não poderiam ser mais claros, com uma visível coincidência de agenda política.

 

Antes mesmo da tempestade provocada pela declaração do Presidente da República, tinha preparado um primeiro texto para este blog, onde tinha escrito: “Estou convencido de que o Presidente da República não se vai recandidatar a novo mandato, o que o deixa mais livre para complicar a vida a um futuro governo socialista”.

 

Receio que seja grande a tentação de alguns sectores do PS fazerem acordos preferenciais com o CDS, não só por motivos aritméticos, mas também políticos. As razões aritméticas são evidentes, dada a soma dos deputados dos dois Partidos, garantindo maioria absoluta. As razões políticas serão igualmente observáveis: o grande crescimento do partido de Paulo Portas e a sua cautelosa reserva nesta crise institucional; os antecedentes de “bom comportamento” desse líder quando coligado com Durão Barroso, mostrando-se um parceiro de coligação fiável e eficaz; seria uma fórmula tranquilizadora para os meios dos negócios. Acordos com o CDS seriam para esses sectores preferíveis aos com o PSD, dado o previsível agravamento da instabilidade desse Partido e a falta de credibilidade que tem demonstrado em anteriores ocasiões (basta ver que o único “pacto” PS/PSD, no domínio da Justiça, em boa verdade não funcionou, antes pelo contrário).

 

Se os elementos anteriores têm algum fundamento, isso deve ser motivo de reflexão para a esquerda, num momento particularmente delicado. Tenho dificuldade em compreender a mera postura de combate do Bloco e do PC contra o PS, justamente numa conjuntura em que teriam condições para condicionar positivamente as orientações políticas dominantes. Tanto mais quanto, à escala mundial, a crise do neo-liberalismo parece representar a oportunidade de alguma inflexão política no sentido favorável aos sectores que têm sido críticos em relação à globalização selvagem e ao “capitalismo desorganizado”. Não sei se seria possível uma “política de esquerda” (tanto mais quanto hoje parece difícil definir todos os contornos dessa alternativa), mas deveria tentar-se em Portugal “uma política um pouco mais à esquerda”, em correspondência com a vontade da maioria do eleitorado.
 


28 de Setembro de 2009

Talvez o mais surpreendente desta noite eleitoral seja a ausência de qualquer surpresa. O PS conseguiu uma vitória justa e clara e o PSD não conseguiu fazer mais do que nas última legislativas, quando ainda era liderado por Santana Lopes. É certo que o PS perdeu a maioria absoluta, mas os 36% alcançados traduzem-se num bom resultado depois de uma legislatura conturbada. Acresce que a diferença para o segundo partido mais votado excede as expectativas: 8% correspondente a mais de 400 mil votos. Os resultados confirmaram a campanha segura e confiante de José Sócrates e o eleitorado escolheu-o inequivocamente para primeiro-ministro.


Se há algum resultado minimamente surpreendente, este refere-se à nova configuração do parlamento. Tudo aponta para o PS governar sozinho e sem acordos parlamentares. Mas esta nova configuração é complexa e apresenta pelo menos duas consequências, a segunda das quais será a mais curiosa:

 

- a ausência de maioria absoluta obrigará o governo do PS a re-orientar algumas áreas de governação, a adoptar uma postura mais dialogante com as demais forças políticas, e a gerir com cuidado acrescido a relação com o Presidente de República;


- o facto do PS necessitar apenas de um de dois partidos à direita para encontrar acordos pontuais no parlamento (PSD ou PP), mas precisar de dois à esquerda para o mesmo fim (BE e PCP), faz prever uma maior facilidade para obter acordos à direita – facto tanto mais provável quanto maior for a necessidade do PCP e do BE competirem entre si para recusarem acordos com o PS e sustentarem a sua base eleitoral de protesto.


Este será talvez o maior paradoxo desta noite: o resultado expresso de uma maioria inequívoca dos três partidos de esquerda no parlamento, em contraste com a maior probabilidade do PS vir a celebrar mais acordos à direita do que à esquerda. A legislatura promete.

um uivo de Nuno David às 04:37

Afinal não houve grandes surpresas. Apesar do aumento da abstenção, não se pode dizer que seja dramático, muito menos no contexto pós-europeias. Havendo um certo cansaço do eleitorado, esse cansaço revelou-se mais num gesto de protesto contra quem deteve nos últimos anos o poder total (salvo seja). Isto era o que muitos já prevíamos. A noite passada foi, compreensivelmente, de celebração. De resto, deu para que quase todos tivessem motivo para festejar (menos a Dra Manuela, e mesmo assim pode argumentar que o PSD cresceu, em votos e em deputados). 

Porém, com mais ou com menos retórica, com maior ou menor triunfalismo (do CDS ou do BE), o certo é que as “vitórias” ou “derrotas” são bastante relativas. No fundo, elas tendem a medir-se em função das expectativas criadas. E desse ponto de vista, talvez a maior vitória, porque menos esperada, seja a do CDS/PP. O Paulinho bem pode mostrar a dentadura, pois o seu partido avança e afirma-se como bastião da direita. O BE, com a duplicação do número de deputados e o aumento substancial de votos, tem motivos de sobra para estar eufórico. Vai passar a contar mais, sem dúvida. Embora não saibamos ainda ao certo como. A CDU/PCP aguentou-se mais uma vez (aumentou um deputado e o nº de votos).

Por seu lado o PS conseguiu aquilo que, após as europeias, muitos julgavam impossível. Teve a “maioria clara” que Sócrates pediu ao eleitorado. Graças a quê? Do meu ponto de vista, porque o líder do PS se mostrou muito consistente na campanha, conhecedor das matérias, com sentido de Estado, com uma postura positiva e mobilizadora, vincando bem o contraste perante uma Manuela Ferreira Leite pouco convincente, crispada e negativa. Claro, a imagem foi fundamental. Sócrates tem boa imagem, e melhorou-a nos últimos tempos. Exactamente o oposto de MFL. Mostrou-se mais calmo, com a serenidade suficiente para inspirar confiança e capacidade. Esteve melhor que a sua adversária directa e conseguiu (com a ajuda de alguns notáveis do PS) beneficiar do “voto útil” e da defesa do Estado social. Mas, para além disso, no seu novo estilo, fez passar a ideia (ainda que sem o admitir abertamente) de que reconheceu alguns dos excessos e erros cometidos pelo anterior governo. Muitos dos que antes o criticaram terão visto na sua expressão algum sinal de arrependimento sincero.

E agora? Bem, no dia do jogo celebra-se. No dia seguinte pensa-se no próximo combate e começa-se a prepará-lo. Confirmou-se a maioria parlamentar de esquerda. Porém, uma “aliança de esquerda” para a legislatura tem poucas condições de avançar. Bloco e PC cresceram à custa da crítica constante às políticas do anterior governo. O BE quer chegar ao poder, mas anda há algum tempo a sonhar com “um outro PS”. Todos temos o direito ao sonho. No entanto o velho princípio da real politik obriga-nos a por os pés no chão e ler a realidade que temos. As pessoas e os líderes podem evoluir e mudar. Não sou ingénuo ao ponto de acreditar que o novo PS de Sócrates vai mudar radicalmente. Todavia, parece-me óbvio que a estratégia seguida pelo PS e o programa do futuro governo terão de adaptar-se às novas circunstâncias. E porventura saberão perceber o essencial: verificou-se uma reorientação do eleitorado à esquerda. Larga parte dos votos do BE saíram directamente do PS. As pessoas, sobretudo essas pessoas (ou seja, os cerca de 18% do BE e PCP somados), querem melhores políticas sociais, mais e melhor emprego, menos desigualdades e injustiças; querem ser reconhecidas e estimuladas no trabalho, no consumo e na sociedade; querem um sistema educativo de qualidade, com os professores motivados e os alunos a aprender; querem os jovens universitários com acesso ao emprego de qualidade.

Mesmo reconhecendo as dificuldades de um compromisso à esquerda (PS+BE+CDU), a reorientação de algumas das áreas governativas mais polémicas terá de passar pela aproximação a posições que esses partidos da esquerda defendem desde há muito (e foi em parte por isso que cresceram). Fundamental é que a liderança do PS retire argumentos que justifiquem as habituais posições irredutiveis e de contra-poder. A política de navegação à vista, com a ginástica dos acordos pontuais no parlamento, poderá ser uma saída. Mas esse deve ser sempre o último recurso, porque, assim, a permanente instabilidade será incomportável.

 

 

um uivo de Elísio Estanque às 02:28

25 de Setembro de 2009

No domingo voto Bloco de Esquerda.

 

O voto flutuante, chamado frequentemente de útil por contribuir para ganhar uma eleição através da concentração dos votos, oscila, a pouco mais de 48 horas da abertura das urnas, entre votar PS ou votar BE.

 

Não estamos, na minha perspectiva, perante um cenário de polarização das eleições entre PS e PSD que obrigue a que o voto útil se faça pela negativa. Em rigor, à esquerda, não estamos a ser confrontados com a necessidade de votar PS para impedir que o PSD ganhe. Não estamos prisioneiros do "mal menor". E se esse cenário de polarização foi insinuado, ou se ameaçou concretizar-se, serviu, definitivamente, para que o PS descolasse nas sondagens para muito perto da maioria absoluta.

 

Tão má quanto a perspectiva da polarização seria a repetição de uma maioria absoluta de José Sócrates, garantida com votos de cidadãos descontentes com o actual PS, levados a exercer o seu direito pela negativa, apenas para evitar um governo de direita. Ironicamente, essa eventualidade seria interpretada como uma aclamação das políticas do actual Governo. Considero, por isso, que o voto mais útil é aquele que obrigar o PS - putativo vencedor das eleições - a governar à esquerda. Por isso mesmo, vejo a minha escolha como inequívoca.

 

Quanto mais o PS se aproximar da maioria absoluta, se é que não chega lá, maior será a tentação em repetir o modelo de governação da legislatura que agora chega ao fim. Por outro lado, não estou certo que, para efeitos de composição de uma maioria absoluta parlamentar, o PS de José Sócrates não se entenda melhor com o CDS-PP de Paulo Portas que com os partidos à sua esquerda. Seria até menos custoso face à desconfiança do PS em relação aos partidos à sua esquerda  e ao esforço que teria de fazer para se tornar um partido de confiança dos partidos à sua esquerda. Essa tentação de fuga à esquerda poderá ser tanto maior quanto a CDU  e sobretudo o BE não chegarem aos dois dígitos.

 

É preciso, assim, um voto útil que permita a emergência e a consolidação de alternativas de esquerda. Nestas eleições, neste momento, o que está em causa é menos a vitória do PS e mais a necessidade em garantir uma real vitória da esquerda que faça regressar o PS à sua matriz identitária. José Sócrates e o actual PS já deram sinais claros que se não os forem buscar eles não vêm por sua iniciativa.


23 de Setembro de 2009

 

Na edição do jornal Público da passada 2ª feira (21.09.2009), dois artigos de opinião (de André Freire e de Elisio Estanque, este já vertido para o "cão como tu") e um editorial (de Manuel Carvalho) colocavam a questão do "day after" eleitoral, da governabilidade e do papel da(s) esquerda(s) na solução de governo.

 

Nas últimas linhas do seu seu texto ( "Incertezas para as legislativas") André Freire diz que "Após as eleições, e se se verificar uma maioria de esquerda, veremos se os dirigentes destes partidos estarão ou não à altura das suas responsabilidades". Por seu lado, Elísio Estanque ("A possível maioria de esquerda") refere que "Assim, uma proximação entre o PS e o BE será o requisito mínimo para um governo estável e de esquerda. Para o PS isso ajudaria, e muito, a uma possível reconcialiação da sua actual liderança com aqueles segmentos desiludidos do seu eleitorado que nestas eleições votarão mais à esquerda ou abstêm-se". Por fim, o subtítulo do editorial ("Um novo bloco à esquerda?") avisa que "Se as cúpulas do PS e do BE avançarem para um bloco estável para garantir a governação, terão de torpedear princípios e engolir sapos numa escala nunca vista em Portugal. " (os sublinhados são da minha responsabilidade).

 

Dirigentes, lideranças e cúpulas, parece que têm o poder de decidir o que vai acontecer à esquerda (e, em grande medida, ao País) no dia 28 de Setembro! Mas, será que têm mesmo esse poder? Será que algum desses chefes está mandatado (através de decisões estatutárias tomadas pelos órgãos partidários competentes) para assumir qualquer decisão sobre fórmulas governativas (e a respectiva estabilidade) que extravasem as decisões dos seus últimos congressos ou de outros órgãos próprios? Será que algum deles colocou frontal e directamente essa possibilidade ao seu eleitorado? Será que o não fez por mera táctica ou por reserva mental? Penso que não!

 

O mais provável é que o PS seja o partido mais votado e, por isso, seja chamado a formar governo. O mandato que foi dado aos seus actuais dirigentes, nos órgãos de deliberação máximos, é o de aceitarem essa incumbência através de um governo do PS.  O mais provável é que proponham a formação de um governo "monocolor" mas com aberturas estratégicas à sua esquerda e à sua direita, ou seja, procurando integrar em determinadas pastas figuras "independentes" conotadas mais com este ou com aquele partido, por forma a facilitarem a negociação da passagem do programa de governo na Assembleia da República. Tudo o que for para além disto, nomeadamente a formação de um governo de coligação formal, exigirá que o partido se pronuncie em congresso ou que arranje uma outra forma de se pronunciar (no meu próximo post tentarei analisar as consequências disto).

 

um uivo de Jorge Martins às 11:03

22 de Setembro de 2009

É certo que as clivagens entre os partidos de esquerda em Portugal (PS, BE e PCP) – ainda expressão tardia dos traumas do PREC –, não auguram grande optimismo para acordos parlamentares estáveis. Porém, os previsíveis resultados eleitorais justificam algum voluntarismo. Antes de mais, é legítimo esperar que, no dia seguinte às eleições, surjam alguns sinais de abertura dos principais protagonistas para compromissos políticos que garantam a necessária governabilidade. A confirmar-se a esperada vitória do PS, com maioria relativa, resta-nos como possibilidades ou um governo minoritário ou de maioria de esquerda. Em qualquer dos casos, seja na base de acordos pontuais ou de uma aliança de médio prazo, parece inquestionável que alguns entendimentos terão de ocorrer, para que o futuro governo PS não caia pouco tempo depois de tomar posse.

E aqui, entre uma cultura de rigidez e de autismo como é a do PCP (um partido que, queira-se ou não, está em processo lento de implosão) e uma cultura de maior dinamismo e democraticidade interna como é a do BE (um partido que, queira-se ou não, está em fase de consolidação como terceira força política), terá por isso mais lógica esperarmos uma aproximação entre o PS e o Bloco (caso consigam, em conjunto, uma maioria de deputados).

Se admitirmos que os socialistas e o seu actual líder já se deram conta de alguns dos erros políticos cometidos nesta legislatura, não só no estilo e no diálogo com a sociedade, mas também em áreas políticas decisivas (como a educação, o trabalho, etc), é razoável esperar que algumas concessões ocorram nesses domínios, tendo em vista um possível acordo parlamentar à esquerda. Idealmente, esse acordo deveria abranger o PCP e o BE, mas tal parece irrealista. Assim, uma aproximação entre o PS e o BE será o requisito minimo para um governo estável e de esquerda.

Para o PS isso ajudaria, e muito, a uma possível reconciliação da sua actual liderança com aqueles segmentos desiludidos do seu eleitorado que nestas eleições votarão mais à esquerda ou abstêm-se. Para o Bloco de Esquerda, seria uma fantástica oportunidade de mostrar ao eleitorado o seu sentido de responsabilidade, assumindo-se, de facto, como uma força alternativa, que não apenas cresce para protestar ou gritar mais alto, mas que é capaz de colocar no seu horizonte a governação (sem esquecer que o seu crescimento eleitoral é sobretudo à custa do PS).

Acresce que a eventual influência do BE no governo (com ou sem a ocupação de pastas no executivo) poderia garantir mais transparência e eficácia na acção reguladora do Estado, e, em contrapartida, essa eventualidade significaria que o Bloco assume o reformismo e a economia de mercado como eixos estruturantes da organização socioeconomica. É claro que isso teria um preço elevado. E certamentente entraria em choque com a praxis e a linguagem radical de alguns sectores bloquistas. Mas, a verificar-se, tal cenário pode significar um decisivo virar de página na história da esquerda e da democracia portugues.

 

(Artigo originalmente publicado no Público de 21 de Setembro.)


um uivo de Elísio Estanque às 22:58

A campanha para as legislativas acabou. Resta saber a quem aproveita o fato.

 

O afastamento de Fernando Lima no auge da campanha não é inócuo. Cavaco Silva, neste momento, e sobretudo na fase inicial do processo, quando deveria ter tido as devidas responsabilidades de Estado para impedir que o assunto das escutas atingisse proporções desmesuradas, deixa adivinhar uma estratégia cujos contornos só o futuro permitirá descortinar, mas que está muito para lá de uma vulgar crise artificial.

 

Se o afastamento de Fernando Lima, num momento convenientemente oportuno, servir apenas para que Cavaco Silva, afinal, já não tenha de falar depois das eleições, isso diz bem mais sobre a invenção de fatos com objetivos inconfessos, mas premeditados, que não podem, de modo algum, ficar sem paternidade.

 

Se o afastamento de Fernando Lima, na sequência dos demais fatos ligados às escutas, serve para controlar os resultados das eleições e o jogo de forças que delas resultar, exactamente  no ponto em que Cavaco Silva gostaria de exercer a sua magistratura, então a situação não é menos grave.

 

Uma coisa é certa. A campanha para as legislativas acabou. Toda a gente quer ouvir Cavaco Silva. Dele, obviamente, se espera que não fique calado.

um uivo de Paulo Peixoto às 02:00

14 de Setembro de 2009

Será difícil recordar umas eleições com um desfecho tão incerto como as próximas eleições legislativas. Num primeiro plano, o que está seguramente em causa é uma escolha entre um governo minoritário do PS ou um governo da direita. Mas a concretizar-se a desejável vitória do PS, o que pode vir a estar igualmente em causa depois das eleições, e pela primeira vez na democracia portuguesa, será a capacidade dos partidos da esquerda radical convergirem para um acordo com o PS de natureza parlamentar.


A postura autista do PCP e do BE, que exploram o voto de protesto sem qualquer intenção de estabelecer pontes comuns de entendimento político na esquerda portuguesa, será talvez um dos factores que mais tem contribuído para resvalar o PS para a margem direita da política portuguesa. Se a disputa de ideias é um pilar básico da democracia, não será menos importante a capacidade dos partidos estabelecerem pontes comuns de entendimento. Não se entende, por conseguinte, que em 35 anos de democracia portuguesa nunca tenham havido entendimentos à esquerda.

 

Democracia significa entendimento e compromisso, capacidade de abdicar de objectivos programáticos defendidos por poucos em troca de objectivos programáticos abrangentes e consensuais. O PS sabe, felizmente, disso. O PCP e o BE ainda precisam aprender. O desfecho das eleições é ainda incerto. Mas, quem sabe? A oportunidade para essa mudança de atitude pode estar aí à porta! Esperemos para ver.

 

um uivo de Nuno David às 21:04

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