31 de Janeiro de 2010

A propósito do apoio do BE à candidatura de Manuel Alegre, saiu nos últimos dias uma noticia do semanário SOL com declarações minhas em que se referia haver uma estratégia do Bloco e um "aproveitamento" em relação a esta candidatura que “não é positivo”, servindo os argumentos dos seus inimigos. Na mesma entrevista disse o mesmo em relação a qualquer atitude idêntica de outro partido. Mas isso não saiu no jornal.

Embora filiado no PS, tenho muitos amigos da área do bloco e estou seguro que ao longo da candidatura presidencial de MA iremos sem dúvida consolidar muitas das cumplicidades e posicionamentos políticos de grande proximidade que já partilhamos em muitas matérias.

Aquela referência a uma certa “colagem” do BE, que no actual momento me parece ser negativa do ponto de vista da candidatura, é, portanto, simétrica da opinião que tenho em relação a qualquer outra (hipotética) tentativa semelhante, inclusive por parte do PS, apesar de ser o partido do candidato e de muito do desfecho da candidatura de Alegre, estar ainda dependente da posição a tomar pelos socialistas.

Há cinco anos atrás a candidatura de Francisco Louçã à presidência também não foi completamente pacífica dentro do Bloco. E até alguma condescendência com a candidatura de Mário Soares, por contraposição com alguns “ataques” à então candidatura independente de Alegre, geraram alguma polémica. Seja como for, as coisas mudaram bastante ao longo da última legislatura.

Ao longo dos últimos 4 anos, MA esteve ao lado de Louçã em alguns momentos marcantes, pelo que a sua imagem foi projectada para uma aproximação ao Bloco. Continuo a pensar que essas situações foram plenamente justificadas, além do mais pelas medidas e políticas incorrectas adoptadas pelo governo PS (designadamente em áreas como a educação a saúde e o trabalho). A luta dos professores foi um exemplo marcante da incapacidade de diálogo do anterior governo, de um erro que até o novo governo já reconheceu, na prática, ao mudar a ministra e voltar atrás nas principais medidas nessa área.

Voltando ao Bloco. A questão é que, desta vez, quando já se criou uma ideia generalizada de que o BE apoia a candidatura de Alegre, as pessoas olham para MA e pensam no passado recente, na luta dos professores, na demissão do ex-ministro da saúde Correia de Campos, nas disputas parlamentares e negociações falhadas do Código do Trabalho, e em todas essas situações o (até agora único) candidato da esquerda esteve do lado dos críticos e em oposição ao governo do seu partido.

Do lado do PS, como também é sabido, tais orientações foram tomadas (nos procedimentos e nos objectivos) ao arrepio de promessas eleitorais e daquilo que é a tradição do socialismo democrático que suporta a matriz ideológica do partido. Portanto, não foi Manuel Alegre que se afastou da social-democracia, foi antes a direcção do PS que enveredou por opções neoliberais que a afastaram das suas referências históricas.

Essas posições, de certa forma, “colaram” a imagem de MA ao Bloco de Esquerda. Por essas razões, as pessoas (sobretudo as que se colocam à esquerda do PS, ou as que pertencem à ala esquerda desse partido) sabem bem que Alegre foi critico do anterior governo Sócrates. Mas, por outro lado, as que votaram PS e/ou são militantes “não alegristas” do PS olham com desconfiança para essas “aproximações” de MA ao BE (ex. Teatro da Trindade, Encontro das Esquerdas, etc). Acham que o Bloco está demasiado sintonizado com o candidato. E muitos esperam para ver a posição do PS em relação ao assunto e também as posições do candidato em relação a diversas matérias e problemas com que o país se confronta. Há ainda muitas dúvidas e zonas cinzentas sobre as presidenciais. Mas num ponto está tudo claro: qualquer outra hipotética candidatura na área da esquerda seria desastrosa, quer para o PS, quer para o futuro da esquerda.

Importa ter em consideração este enquadramento para se fazer uma leitura correcta do actual momento. Embora eu compreenda a necessidade do BE ter logo vindo a público, pela voz de Louçã, manifestar o seu apoio "oficial" a Alegre, antes mesmo de este ser candidato “oficial” (talvez para apaziguar resistências internas), acho que o gesto foi precipitado. A meu ver, faria mais sentido esperar algum tempo. Com isso, a imagem que passou para o Público foi a de uma estratégia bloquista obcecada em tirar vantagem ao PS. Independentemente das intenções, isso evidencia uma "colagem" à candidatura de Alegre. Uma colagem excessiva. Se não foi intencional, pareceu. E como se sabe o que parece também conta, e muito.

Perante isto, eu acho que, apesar de toda a manipulação – dos mass media – que está por detrás, e até por isso mesmo, objectivamente, tal situação ajuda a dar argumentos àqueles que, dentro do PS não desejam o apoio do partido a Alegre, e aos que dentro do PSD e da direita em geral alimentam diariamente essa ficção de que MA é o candidato da esquerda radical (ou seja, do BE).

Nestas condições, enquanto não existir uma posição oficial do PS no apoio a MA, cada vez que alguma figura do BE aparece na TV a dizer que apoia MA, mesmo que repita à exaustão que a candidatura é suprapartidária (como fez hoje João Semedo), está objectivamente a servir os argumentos daqueles sectores e a lançar essa imagem para a sociedade. Não se pode pensar que o apoio do partido “X” é «contra» o apoio do partido “Y”. Seria o mesmo que dizer “queremos a unidade da esquerda, mas desde que ela se baseie nos ‘puros’ princípios que defendemos”!!

É, pois, importante fazer – como MA fez hoje no Porto – um esforço de demarcação em relação a qualquer partido. Neste momento é a excessiva "colagem" do BE que atrapalha. O que, evidentemente, requer que a mesma preocupação esteja presente no caso de, amanhã, ser o PS a pretender apropriar-se da candidatura.

A questão é esta: a candidatura já tem o apoio do BE e ainda bem (de certo modo já a tinha, pelo menos informalmente). Mas precisa agora do apoio do PS. Goste-se ou não se goste de Sócrates e desta direcção do PS, a realidade é esta: sem esse apoio a candidatura de MA jamais terá hipóteses de sair vitoriosa; mas sem esse apoio, é Cavaco Silva e a direita que saem beneficiados.

Publicado em simultâneo no blogue: Boa Sociedade

 

um uivo de Elísio Estanque às 22:48

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