24 de Janeiro de 2010

Não se pode agradar a gregos e a troianos. Na vida há sempre quem goste e o seu contrário. Mas a inveja continua a ser o pior dos males da humanidade. No caso de Alegre, os que não gostam dele - e não me refiro aos adversários políticos de direita -, são muitas vezes as figuras de segunda linha, personagens sem voz e sem luz próprias que arremessam pedras para disfarçarem a má consciência da sua própria morte sem memória futura. Eu compreendo alguns desabafos, mas também sei que o azedume de alguns camaradas do meu partido (PS) é tudo, menos tolerante. Que cada um assuma as suas responsabilidades.

 

Não devem levar a mal que Manuel Alegre tenha escolhido fazer o seu destino, que tenha feito opções arriscadas, que tenha decidido pela sua cabeça. Fernando Pessoa dizia que a “vida é de quem a conquista e não de quem a sonha conquistar ainda que tenha razão”. O poeta da “Trova do vento que passa” cedo compreendeu que há um tempo para resistir e outro para agir. Quem escolhe fazer o seu destino, a “moira” de que falavam os gregos, será sempre um alvo fácil de crítica, principalmente, por aqueles que se sentem desconfortáveis na sua própria pele, por aqueles que não iluminam nem o seu próprio umbigo. O mundo está cheio daqueles que diziam que Obama não tinha hipótese de ganhar nada. Por cá, essa semente daninha tem alguns defensores oficiosos que argumentam no seu castelo as suas inverosimilhanças. Quem ousa agigantar-se contamina sempre as multidões. É este espírito que Portugal precisa. Os portugueses esperam que Manuel Alegre seja igual a si próprio, que traga emoção e esperança, que fale claro e que a sua voz tenha o timbre que envolve os corações de cada um. Estamos fartos de tecnocratas, de gente “qualificadíssima” que se esquece quase sempre de falar das pessoas, mas que lembra a todo o instante a frieza dos números, como se o mais importante fosse a economia e não a política. Os politólogos do momento encaixam no puzzle liberal onde desaguam os mentores da insensibilidade social. Por isso, Manuel Alegre é a metáfora de um rio que transborda para as margens as palavras que se afeiçoam aos afectos, onde aqueles que nada têm soletram no olhar do poeta a emoção que os liga. O povo gosta de gente que se emociona, que chora, que sofre com a dor dos outros, que é capaz de golpes de asa, que resiste aos caminhos mais curtos.

 

Quando eu decidi apoiar Manuel Alegre nas últimas eleições um coro de espanto e de admiração toldou aqueles que me eram próximos. Não estranhei as críticas nem as deslealdades. Achei normal a divergência. Agora será mais fácil para aqueles que estiveram contra juntarem-se a esta corrente imparável que se sente todos os dias, como se antecedesse a festa premonitória. A esses, que não estiveram com Alegre nas últimas eleições presidenciais, digo-lhes que chegou a hora de o fazerem. Ele representa um projecto de esperança, é capaz de unir a esquerda em torno do essencial, dos seus valores e dos seus princípios. Portugal tem uma história de séculos fundada numa matriz de cultura e de humanismo, de tolerância mas, também, de coragem. Ele personifica tudo isto, ele é o insubmisso que leva consigo a herança de um passado comum que falta cumprir-se.

 

Eu quero um Presidente que conheça a história de Portugal, que saiba interpretar a diáspora, que recupere o melhor do nosso cosmopolitismo; eu quero um Presidente que tenha orgulho na palavra Pátria, onde cabem todos os nossos heróis, os nossos poetas, os filhos daqueles que construíram o Mosteiro dos Jerónimos, os filhos daqueles que construíram as caravelas, os filhos daqueles que sem nome de família foram dando “novos mundos ao mundo”. Eu quero um Presidente que tenha “saudades do futuro”, que não vete os direitos daqueles que são diferentes, que exerçam a magistratura de influência para aumentar a auto-estima nacional. Eu quero um Presidente em que o verbo rime com uma lusofonia de acolhimento e não de exclusão. Eu quero um Presidente com espírito erasmo onde os mitos fundadores renasçam.


O regresso de Manuel Alegre activa as utopias que o imaginário nunca dissolve.

 

Por António Vilhena

Publicado originalmente no Diário de Coimbra

um uivo de Cães como tu às 16:30

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