29 de Novembro de 2009

Guillaume Santos e Maria AntóniaApós um sofrimento de 5 anos, no dia 23 de Novembro, partiu um dos últimos Lusitanos, como ele orgulhosamente se intitulava. Tinha uma personalidade forte, mas ao mesmo tempo fascinante. Quem o conheceu, jamais o esquecerá e como sua amiga desejo partilhar a sua rica biografia com quem não teve o privilégio de usufruir do seu convívio e de fazer parte do seu grupo de amigos.

 

Nasceu em Vila Nova de Gaia em 4 de Agosto de 1942. Superiormente inteligente, não isento de um fino humor, possuía uma vasta cultura, poder de comunicabilidade e grande generosidade.

 

Aquando da guerra de África, ainda aluno do curso de Aeronáutica da Força Aérea, mas já na qualidade de Tenente, fazia voos diários em aviões caças com percursos e missões diversas. Era frequente sobrevoar Cabo Verde com a incumbência de transportar correio que devia deixar cair sobre o Tarrafal.

 

Em determinada ocasião destinaram-lhe Angola com a finalidade de lançar Napalm. Homem de sãos princípios, este feito amargurou-o muito. Durante a 2ª deslocação, revoltou-se contra tão cruel missão e, sentindo-se incapaz, negou-se a repeti-la contrariando as ordens superiormente recebidas.

 

Claro que ao regressar à Base foi imediatamente detido. Após um período de reclusão seu Pai, devido a fortes influências do regime, conseguiu a sua libertação e apoiou-o no sentido de sair do país e de ir estudar Arquitectura em Stuttgart (capital e a maior cidade do Estado de Baden-Württemberg) na Alemanha.

 

Terminado o curso instalou-se em França, mais propriamente em Toulouse onde casou pela 1ª vez com uma senhora de quem teve uma filha, Delphine – médica, já falecida, e Mãe do seu neto Matthew. Entretanto separou-se e foi residir para Paris onde refez a sua vida e onde vivem os seus 3 filhos – Samuel, Myriam e Elizabeth. Costumava visitá-los, com a sua actual mulher portuguesa, Maria Antónia Santos, distinta artista plástica.

 

Com muita saudade, recordo-te Guillaume, através de longas e agradáveis conversas, em que me falavas da tua vida passada e onde expressavas uma paixão imensa pela tua querida Toina e enorme admiração pelas suas capacidades, quer como pintora, quer como companheira dedicada que, com muita coragem e amor, te transmitia forças para enfrentares um fim tão injusto.

 

Numa dessas longas conversas, sentado na minha sala, embora me fixasses percebi que o teu olhar se encontrava longínquo. Num passado para ti tão presente. Estou certa de que pela tua mente passava o enfant gâté e o jovem militar que teve a coragem de enfrentar o regime pondo em risco a sua própria vida e possivelmente pairava também em França, onde casaste 3 vezes. Afirmaste-me que eram mulheres lindas e muito interessantes intelectualmente, com lugares profissionais de destaque, que muito amaste e com quem apesar da separação sempre mantiveste um relacionamento amigo. Falaste-me dos teus filhos, confidenciaste-me que numa das últimas visitas que lhes fizeste, juntamente com a Mª Antónia, lhes deras conhecimento do teu estado clínico, do amor que tinhas pela vida, pelo que tudo farias para lutar no sentido de venceres a doença, mas que em caso contrário, também lhes disseste que não querias sofrer sem esperança e que eras pela eutanásia.

 

Contudo essa tua vontade, uma vez que em Portugal a eutanásia ainda não está legalizada, não foi cumprida. No entanto com lucidez e imensa força, sentiste enorme gratidão pela tua médica do Hospital de Oncologia que administrando-te paliativos minimizou em parte o teu sofrimento. Infelizmente ultimamente os teus pulmões foram afectados e o teu sofrimento foi muito grande.

 

Numa das suas últimas mensagens via e-mail enviada a Cunha Leal, em simultâneo com uma fotografia de uma nebulosa escreveu:

 "Je suis à la porte d'entrée. Aurais-je la force de retenir la porte pour m'éloigner ou je plonge?"

Este amigo ainda teve tempo de lhe responder:

 "Bela como os sonhos que partilhamos de um futuro onde todos possamos vencer a fome e o medo. Tu tens a força e nós precisamos de ti.

António Cunha Leal"

 

Em França distinguiu-se como Arquitecto, onde juntamente com 3 Colegas montou Atelier.

 

Aquando da Presidência de Miterrand, fez parte do Governo como Assessor de Jacques Lang, Ministro da Cultura. Nesse cargo promoveu a arte tendo-se empenhado, o que é de destacar, na criação de Ateliers para os Artistas Plásticos e respectivo apoio.

 

Em Roma, por ocasião do filme de Fellini “La Nave Va” em que Guillaume participava na realização do cenário, encontrou-se e ficou amigo de Umberto Eco, que o referenciou no seu livro “O Pêndulo de Foucault”.

 

Guillaume possuía as duas nacionalidades, a portuguesa e a francesa. Em Portugal ambas eram-lhe reconhecidas. Mas, como a lei francesa só permite uma nacionalidade, em França era considerado apenas francês.

 

Aquando do seu último divórcio, como já poderia regressar a Portugal, devido ao 25 de Abril, optou por aqui viver definitivamente. País que sempre amara, Aqui exerceu a sua profissão de Arquitecto, onde foi apreciado e deixou obra, realçando-se, entre outras, a Urbanização de Lagos-Algarve.

 

Destacado elemento do Partido Socialista Francês, na qualidade de Secretário da “Federação de Franceses no Estrangeiro” – FFE – era o seu representante junto do Partido Socialista Português.

 

Era pois um Socialista que participava na nossa vida política e nos encontros do Partido Socialista.

 

Foi igualmente apoiante da Corrente de Opinião Socialista. Nos últimos tempos um dos seus objectivos consistia em acabar uma Tese sobre “Semiótica” que desejava publicar e que se destinava ao CNRS – “Centre Nationale de la Recherche Scientifique” de que era membro.

 

Quando manifestei à Maria Antónia Santos o meu propósito de homenagear Guillaume, escrevendo parte da sua admirável vivência, comoveu-me muito ouvi-la dizer: - “Com uma cultura riquíssima, foi o Homem mais brilhante que conheci em toda a minha vida. Foi um Homem extraordinário, sinto-me muito orgulhosa dele e de ter sido sua mulher.”

 

Guillaume, sei que não voltarei a ouvir a tua voz, do outro lado do “tlm”, a dizer-me: -“estou no Hotel Baía com a Toina, não queres vir até cá tomar um café e conversar connosco?”

 

Mas, sei também que serás sempre um ausente presente nos nossos Almoços - Tertúlias da Margem e da COS, onde os teus amigos e os teus irmãos jamais te esquecerão. Em nome de todos nós um Grande Abraço e até logo.

 

Imagem: Guillaume com sua mulher Maria Antónia

um uivo de Maria José Gama às 00:31


Os amigos , são uma verdadeira filigrana...
Quando nos deixam, resta testemulhar o bem querer...
Gostei de ler a sua saudade por Guillaume.
Abraço
:))
29 de Novembro de 2009 às 02:15

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