24 de Outubro de 2009

O apoio expresso de Manuel Carvalho da Silva (MCS) a António Costa, na sua candidatura à Câmara Municipal de Lisboa, tem suscitado diversos comentários e, ao que parece, alguma agitação interna nos meios comunistas. O episódio seria irrelevante se não fosse o que ele exprime, por um lado, de ataque ao sindicalismo e, por outro, de desrespeito pela idoneidade e direitos de cidadania de cada um. Importa, pois, compreender o significado de tanta agitação, dentro e fora do PCP.

 

Do lado de fora, o objectivo parece ser – em coerência com a ideia de que a nossa competitividade só se resolve com congelamentos salariais e o fim do sindicalismo – o de atacar tudo o que venha do campo sindical, reduzindo-se a actividade da CGTP ao poder de “manobra” do PC, usando-se este caso para reiterar a ausência de autonomia, de debate e de renovação numa central totalmente submissa aos ditames do partido. Mas, estranhamente, ataca-se MCS no preciso momento em que ele afirma uma posição contrária às exigências do comité central.

 

Do lado de dentro do partido, enquanto MCS manifestou abertamente o seu apoio à CDU e ao camarada Jerónimo de Sousa (quer nas autárquicas quer nas parlamentares) estava tudo na paz dos deuses. Ou seja, até aí o líder sindical, o cidadão ou o militante estaria no pleno uso dos seus direitos cívicos e políticos. Mas a autonomia e a liberdade pessoais desaparecem perante os votos de uma vitória de António Costa, ainda que justificados por ser a melhor para “unir a esquerda” e realçado o apoio político à CDU no plano nacional.

 

Trata-se de um afiar de facas que há muito se desenha, em que as próprias contradições, o “diz que disse” etc., exprimem o clima de pressões e a vontade de vingança que reinam naquele meio. Todo o mundo sabe que a ortodoxia do PCP deseja ver MCS fora da CGTP. Para levar por diante um tal desígnio qualquer pretexto parece servir. E, como é óbvio, isso não acontece devido ao aproximar-se do limiar dos 60 anos (critério aplicável à central mas não aos sindicatos, vá-se lá saber porquê) nem a um suposto desejo de renovação ou rejuvenescimento da central.

 

O que acontece é que MCS ganhou peso social e capital político próprios, não à sombra do partido, não por estar em sintonia com a malfadada “linha justa”, mas pelo contrário. Ganhou espaço pelo protagonismo da estrutura sindical que lidera, mas também pela sua consistência e capacidades pessoais, consolidados em ideias sólidas, afirmadas livremente e reconhecidas quer no campo sindical e social quer no mundo académico. Esse peso específico seria um garante da autonomia (relativa) da CGTP face ao PC, mas tornou-se demasiado grande para caber no estreito pensamento de quem não admite mais concessões à “pureza” dos princípios, expurgados de todos os vícios e desvios. Princípios e dogmas que persistem em puxar para o abismo o sindicalismo combativo que ainda temos, fazendo assim o jeito a quem, do lado de fora, há muito sonha com isso.

 

Também publicado no Boa Sociedade

Publicado originalmente no PÚBLICO de 23/10/2009

um uivo de Elísio Estanque às 09:00

O direito a ser cidadão...dá nisto! Eu acho muito bem que as pessoas expressem de uma forma livre as suas convicções, chega de politiquice e guerras de bastidores. Quanto ao António Costa devo confessar que me surpreendeu, e muito.
26 de Outubro de 2009 às 12:44

parece-me que a sua análise falha em alguns pontos:

1º na minha opiniao, MCS é criticável por gente do PCP exactamente pelo seu apoio a Antonio Costa nao ter sido explicito. Ou seja, por ter havido um encontro casual onde nao deu o seu apoio, mas desejou a vitória a AC, o que é bastante diferente... Outros apoiantes de Costa que eram apoiantes tradicionais da CDU endereçaram cartas ao PCP apresentando as razoes pq achavam q era importante apoiarem AC...

2º na Inter, as criticas nao vêm apenas de dirigentes ligados ao PCP, mas tambem de dirigentes bloquistas que nao viram com bons olhos MCS apoiar um dos maximos dirigentes do PS, PS este responsavel pelo Codigo do Trabalho, Codigo do Trabalho este que foi o centro das criticas da CGTP nestes ultimos anos.

3º é sempre curioso ver comentários à independencia da CGTP quando foi a UGT que foi criada por acordo entre socialistas e social democratas. o q é q é isso da indepedencia, neste contexto?
Concluindo, os desejos de que MCS se afaste do PCP parecem mais, muito sinceramente, desejos de quem se opoe ao PC do que do proprio PC, exactamente "pelo protagonismo da estrutura sindical que lidera, mas também pela sua consistência e capacidades pessoais, consolidados em ideias sólidas, afirmadas livremente e reconhecidas quer no campo sindical e social quer no mundo académico."
31 de Outubro de 2009 às 00:57

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